quinta-feira, 3 de julho de 2008

Equipe "brother"!

Minha vida está em perigo! Estou me arriscando muito ao trazer esse post pra vocês. É noite e posso ouvir o barulho da chuva batendo na janela misturada ao movimento dos carros do posto de gasolina ao lado. O pequeno quarto no qual eu me encontro está totalmente escuro. A minha única fonte de luz vem do monitor desse computador. Eu prendo a respiração enquanto digito esse texto. Daqui desse quarto de motel de beira de estrada, entre o cheiro de mofo e a decoração barata, posso ouvir as vozes dos meus algozes vindas do corredor. Eles estão a minha procura. Batem de porta em porta e revistam cada um dos quartos mal iluminados. Estão determinados e tem pressa. Sabem que a qualquer momento eu clicarei em "publicar post" e ai será tarde demais para me impedir. Não demorarão até me acharem aqui. Tenho que ser breve.
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Ainda me lembro, há alguns dias atrás, de ter confidenciado ao meu melhor amigo (Aquele traidor!) que iria colocar aqui um post revelando a verdade sobre o comportamento do homem na guerra. Sim, um segredo terrível que iria abalar a estrutura da nossa irmandade. Ao fazer isso, eu rompi relações com a "brodagem" masculina. Meus amigos se voltaram contra mim e fui jurado de morte. Minha cabeça está a prêmio.
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Este segredo, passado de geração em geração, somente entre os membros de confiança do clã, agora será finalmente revelado. Se você que me lê, é mulher, saiba que a partir de agora vai entender o que significa "equipe brother" e ainda, como se comporta o homem numa noite de guerra. Se você, homem que me lê, não reconhece o termo, saiba que você não foi considerado digno (eu tenho pena de você, PENA!)...
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Continuo a digitar o texto, enquanto minha mente procura abrigo nas lembranças daquele fatídico sábado... (a imagem fica turva e entra o flash-back...)
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Era um dia quente, fim de tarde na verdade. O céu estava azul e limpo. Chegamos, eu e meu "brother" (traidor!) a essa casa de samba famosa em Brasília, localizada no coração da cidade.
Ao descer do carro, sem dizer uma palavra, dirigimos nossos olhares para a fila e, como no filme "O exterminador do futuro", iniciamos o "escaner" das possíveis "Sarahs Connors" presentes naquele estabelecimento (Nesse momento podia-se ouvir o barulho dos nervos óticos coletando informação sobre os eventuais alvos e enviando as imagens capturadas para o arquivo do banco de dados para futuras referências).
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A casa, como em todos os sábados, estava cheia. Um ambiente agradável, ainda que simples. Cerveja gelada, servida nas garrafas escuras de 600 ml. A banda tocava um samba vibrante, alto e alegre. A composição do público era, em sua maioria, formado por mulheres jovens, muitas em duplas outras em bandos.
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A noite começava a chegar e nos sabíamos o que ela significava. Em breve chegaria a hora de agir. Preparávamos para a batalha que se desenrolaria ali munidos de vodka até o pescoço. É importante que se entenda que a Guerra não é diferente, seja ela travada no Afeganistão ou em uma boate de Brasília. As regras de conduta são as mesmas "Ou você lidera, segue ordens ou sai do caminho". O primeiro em comando é o líder alfa. É aquele que inicia o movimento de ataque ao alvo. A liderança não é pré-definida. Ela acontece depois do reconhecimento do território quando um dos componentes do grupo decide fazer o movimento. Ele não depende de ninguém e, se sozinho, parte para o ataque, mesmo que seja Kamikaze.
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Dito isso, não foi uma surpresa quando o meu colega chamou minha atenção tocando em meu ombro. – "O alvo foi avistado! Repito, o alvo foi avistado! Iniciar procedimentos de abordagem". O novo líder alfa faz o sinal com os dois dedos nervosos apontando os próprios olhos, e em seguida aponta para o alvo. Esse sinal significa que ele partiria para o ataque.
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O alvo se encontrava na posição 6 horas. Eu o localizo. Uma mulher, jovem, bonita, de cabelos longos, castanhos e pele clara. Muito alta para os meus padrões. Ela parece séria e entediada. Dança timidamente, mas está bebendo (o que é um bom sinal. Nunca tente uma abordagem direta com uma mulher sóbria, principalmente se você estiver bebendo).
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Estudo o comportamento do Alvo por alguns segundos. Olhando mais atentamente percebo que ela conversa com alguém. – "OH MEU DEUS!" A amiga dela é mina terrestre com alto grau explosivo... E não parece nem um pouco simpática. Minha espinha gela. Eu antecipei o que viria a seguir, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa o líder alfa dá duas leves batidas com o punho fechado no próprio peito e pronuncia o comando "Equipe brother!". Aquelas palavras ecoaram no meus ouvidos e instintivamente reagi:
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- Nãããããoooooooo!
- O que você disse soldado? Pergunta o líder incrédulo no que acabara de ouvir.
- Quero dizer... Er... Eu... Permissão para beber, Senhor! (repensei.)
- Você tem 3 minutos soldado. Ele responde sem tirar o olhar assassino do alvo.
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Eu queria pedir pra sair. Mas sabia que a recusa do comando "equipe brother" significa a deserção. E desertores são punidos com a morte. Eu não mais seria convocado para outras batalhas. Não que eu seja um guerreiro nato. A guerra ela é cansativa. Sangrenta, cruel e não é muito justa. Mas, ao mesmo tempo é um luxo que um soldado solteiro, não pode abrir mão.
Além disso, fraquejar agora seria abandonar um companheiro em batalha. E no meu papel de "Wingmen" eu não poderia fazer isso. O líder depende de mim.
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Nas forças militares americanas o termo "Wingmen" define o piloto subalterno que voa numa posição traseira à do líder da formação de vôo e oferece apoio cobrindo as laterais de qualquer ataque inesperado. Minha missão seria distrair a amiga do alvo, permitindo que o líder tivesse liberdade para o ataque. O Wingmen é fundamental nesses casos. É ele quem desarma as bombas do caminho, no entanto, já ouvi muitas histórias horríveis de Wingmens que não resistiram ao chamado de dever e acabaram "ficando" com as minas, mesmo tendo sido o líder alfa devidamente explodido. É o sacrifício em nome do dever.
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Me dirijo ao balcão e peço mais uma vodka. Minhas mãos tremem. Eu tento me controlar. Agarro o copo com força e com um único movimento sorvo o conteúdo do copo como se fosse um shot de tequila. Bato o copo na mesa e seco a boca com as costas da mão enquanto eu me volto para o alvo.
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Muitas mulheres reclamam que odeiam os caras bêbados que chegam nelas, mas a verdade é que o álcool é o combustível da cantada. É muito complicado mesmo para os bonitões da noite chegar na cara limpa na mulherada. Elas são cruéis. O toco, por mais inevitável que seja, sempre afeta a auto-estima do sujeito. O álcool elimina o seu senso de auto-preservação e assim, o homem se torna mais corajoso para enfrentar o toco. O grande desafio é o equilíbrio entre o álcool e a coragem, o que lamentavelmente nunca ocorre porque todo bêbado acha que está mandando bem.
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Uma gota de suor escorre pela minha têmpora. É chegada a hora da ação. A partir daí tudo acontece num milésimo de segundos. A banda toca alegremente, mas nenhum de nós realmente ouve a musica uma vez que os nossos batimentos cardíacos soam mais alto. O corpo segue o ritmo no modo automático. O clima é tenso mas misturado ao som do samba permite que disfarcemos o leve nervosismo que vem nos assombrar com um discreto sorriso no rosto. Seguimos em formação de combate na direção do alvo. Sinto a adrenalina percorrer meu cérebro. "Líder Azul preparar para Impacto em três, dois, um... Sorriso! – "Oi, tudo bem... Eu estava olhando você dali e notei..."
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Esqueçam, não vou revelar aqui detalhes da cantada. Cada um tem seu estilo. Mas para mim o segredo é você chamar a atenção logo no primeiro segundo. Nada do óbvio "Você sabia que você é linda?" – Sim, ela já sabe! Perguntas inteligentes, criativas e bem humoradas, adequadas a cada situação usualmente despertam o interesse, provocam a conversa e têm um bom nível de resposta (Eu nunca disse que era fácil). Elas intrigam o alvo que não vê outra alternativa senão permitir que você continue para ver onde você chega, ainda que nós enforquemos no final. E dessa forma, mesmo que o alvo não fique com você, se você for divertido e simpático vai diminuir muito o poder de destruição do toco e ainda pode ganhar uma amizade. É claro que eu já ví muita cantada estúpida funcionar na noite. Mas essa é uma questão de sorte (ou do humor do alvo, ou da "belezura" do outro). De qualquer forma, essas regras aqui são sugestões de estratégias.
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De volta ao bar, já feito o contato inicial, continuei meu trabalho como Wingman, desta vez sozinho com a amiga do alvo, que não olhava para mim e bebia a sua caipiroska incomodada. Parecia preocupada com a amiga. Ainda assim, tentando ser simpático (chato) eu insistia:
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- Pois é? E você e sua amiga costumam vir pra cá? Sorri amarelo.
- Não, primeira vez... E não somos amigas...
- Não são? Er... Primas??
- Não.. namoradas.. estamos juntas há dois anos... (Tchan-tchan-tchaaaan!).
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Foi como se tivessem jogado uma granada aos meus pés! - FIRE IN THE HOLEEEEE!!! Imediatamente olhei para o líder alfa, que tinha se afastado para estabelecer contato com o alvo mais a vontade. Ele continuava sorrindo hipnotizado para a morena que parecia incomodada e nervosa – Ele não tinha como saber que se tratava de uma emboscada!
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Alcancei apreensivo o celular em meu bolso. Os dedos nervosos desbloqueram o celular enquanto procurava o desenho do envelope na tela do celular - Menu – Mensagens – Escrever nova mensagem – Mas antes que eu terminasse de digitar "ABORTAR MISSÃO!", procuro o lider alfa. Era tarde demais para o pobre diabo. Lá estava ele, com um sorriso amarelo no rosto. Parecia desnorteado e com olhar vago. Acho que ele ainda não havia se dado conta do toco que acabara de tomar.
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Vendo os restos mortais do líder, expostos alí no meio do público que sambava, insensível ao toco de proporções cataclismicas que se abateu sobre ele, fui tomado por um imenso sentimento de honra samurai-kamikaze, e me voltado para a gordinha que se encontrava parada na minha frente (me ignorando e fingindo assistir ao show enquanto na verdade, procurava a namorada que já se encontrava conversando com outro), fiz aquilo que achava ser a única saída honrosa diante da situação. Me voltei para ela e decidi puxar o pino da granada:
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"- Sabe que eu sempre achei mulheres que curtem mulheres tão interessa...- KA-BOOOM!!! (Marcha militar fúnebre)...
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De repente, estou de volta ao quarto de motel. Meu flashback, assim como minha digitação foram interrompidos por um poderoso raio que pinta o cubículo de um branco azulado por alguns milésimos de segundos, seguido quase simultaneamente por um estrondoso trovão que faz vibrar as frágeis paredes do motel. Nesse momento percebo que a maçaneta da porta gira e ouço cochichos no corredor. Fui achado! Tenho poucos segundos para clicar em "publicar o post" (CLICK!) e sair pela janela que já se encontra aberta...
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Saio pela janela desajeitadamente e corro alucinado. Tento ignorar um fisgão na perna direita enquanto corro. Meu coração quer sair pela garganta, eu o engulo de volta e acelero o ritmo. Tenho poucos segundos antes que eles arrombem a porta e encontrem a surpresa que eu prepar... - Um estrondoso ruído seguindo por uma onda de calor lança o meu corpo por alguns metros de distância e me impede de concluir o pensamento. Caio desajeitadamente e rolo no chão de terra, acompanhado por dezena de estilhaços do hotel agora em chamas. O zumbido constante nos meus ouvidos quase não me deixa ouvir a sinfonia desordenada de alarmes dos carros próximos que soam desesperadamente. do local onde antes se via o motel, agora se encontra somente um amontoado de escombros em chamas. É o fim dos meus algozes (e também da coopeira, da arrumadeira e outros funcionários... Mas como essa parte é inventada, todos morreram sim!)
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Ainda atordoado, me levanto e bato a terra dos joelhos da minha calça com minhas mãos sujas e feridas pela queda. Já está amanhecendo. Caminho no fluxo contrário da multidão de curiosos que se acumula para assistir o espetáculo das chamas. Sem olhar para trás acendo um cigarro que puxei do bolso da jaqueta, levo-o até boca e aspiro a fumaça amarga enquanto assisto o sol se levantar no horizonte...
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E tusso convulsivamente... Acabo de lembrar que eu não fumo. BLEARGH!

2 comentários:

Roberta disse...

SEnsacional texto !
Por isso tenho medo do Calaf...
Perigo para Mukissas profissionais. kkkkk

Ikarow Wax Wings disse...

Oi Paula.... Fico feliz que tenha gostado...

Mas não fique com medo. Ao menos essa experiência rendeu uma história, né? (Deixe-me acreditar que valeu a pena!!)rs